quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Tropa de elite, osso duro de roer....

Existem alguns festivais de cinema pelo mundo que devemos respeitar. Não devemos respeitar pelo fato de serem famosos, ou pelo fato de ocorrerem em países desenvolvidos (costumamos preferir o que é de fora – cultura dos colonizados). A análise deve ser feita de acordo com os filmes que ganharam seus prêmios principais. E não devemos preferi-los pelo fato de "dizerem" que o filme é bom. Devemos assistir aos filmes e tirarmos, nós mesmos, a conclusão se é bom ou não. Aos poucos descobriremos o que respeitar, confiar, acompanhar.

Eu tenho um fraco por listas. Costumo fazer listas dos filmes vencedores dos principais festivais de cinema: Cannes, Berlim, Veneza. Acho que o de Moscou e Roterdã também poderiam ter suas próprias listas. Palma de Ouro, Urso de Ouro, Leão de Ouro. E por aí vai. Grandes filmes já ganharam, como "Magnólia", "O pianista", "O salário do medo", "O segredo de Brokeback Mountain", "Os guarda-chuvas do amor", "Hana-Bi - fogos de artifício", "A liberdade é azul", "Lanternas vermelhas", "Segredos e mentiras", "Dançando no escuro", "Pulp Fiction", "Central do Brasil", "O pagador de promessas". E lembre que estou considerando apenas o prêmio principal. Há casos de filmes que ganharam menções honrosas e etc. que são tão bons quanto estes mencionados. Agora, dentro deste time que mencionei acima – que está representado apenas por algumas obras famosas para nos identificarmos –, está "Tropa de Elite", de José Padilha.

Este filme, que está envolto por diversas polêmicas ganhou o prêmio principal daquele que eu considero o segundo maior festival de cinema do mundo: o Festival de Berlim. O Berlinale, como costumam chamá-lo, foi presidido este ano pelo cineasta de origem grega Constantin Costa-Gavras. Talvez pudéssemos entrar na discussão da relação deste cineasta ter como temática principal em seus filmes a opressão política, social e capitalista. "Tropa..." trata da opressão policial, a qual tornou-se necessária devido à opressão social, ao crime, à violência. E aí alguns iniciam a discussão: a opressão é justificada? O filme é fascista? Ou o filme é realista? Na minha opinião, ele é apenas um filme. Ponto final.

Confesso que assisti ao filme numa daquelas cópias piratas que circularam em febre pela metrópole paulistana. Alguns dizem que foi uma estratégia de marketing. Acho um absurdo a acusação: ninguém teria a certeza de que uma "estratégia" como esta daria certo. Cinema é um empreendimento muito caro para você arriscar fazer todo um público latente deixar de ir ao cinema e ver em casa, praticamente de graça.

Como dizia, assisti ao DVD pirata, mas logo joguei fora, pois estava tão ruim que fiquei com medo que estragasse o aparelho. Mas gostei. Gostei muito. O filme é extremamente violento. Aqueles que criticam, fecham os olhos para nossa realidade. Dizem que o filme sugere a violência, justifica a atitude dos policiais. É irresponsável dizer que justifica. Poderíamos dizer que ela explica. As péssimas condições de trabalho do policial, a corrupção, a violência do crime organizado. Estão todos lá. Pergunto se aqueles que criticam o filme chegaram a assistir a "Notícias de uma guerra particular", de João Moreira Salles e Katia Lund. Peguem o DVD e assistam aos extras (principalmente à entrevista do ex-comandante da Polícia Civil do RJ, o hoje deputado Hélio Luz).

Prefiro olhar o filme de José Padilha como um tratado sociológico. Este cineasta, por sinal, fez um documentário chamado "Ônibus 174", que segue a mesma linha de estudo. Não demonstra apenas o fato, o acontecimento, e, sim, preocupa-se em buscar a semente. Pois é desde a semente que as coisas devem ser arrumadas. Ao mesmo tempo, também faz um retrato do treinamento do BOPE, violento e humilhante.

Para vocês terem idéia da qualidade deste festival, dois dos outros premiados foram Paul Thomas Anderson, melhor diretor por seu "Sangue Negro", e "Standard Operating Procedure" (dirigido pelo experiente Errol Morris) foi o melhor documentário. Só para registro, este documentário é sobre as torturas ocorridas em Abu Ghraib. E não esqueça da Menção Honrosa ganha pelo também brasileiro "Mutum", de Sandra Kogut, baseado no clássico "Campo Geral", de Guimarães Rosa.

Texto escrito por Hugo Harris (http://hugoharris.wordpress.com/)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Renato Russo reencarnado no palco

Ontem fui ao Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) assistir a peça “Renato Russo”, sobre o cantor e compositor da Legião Urbana, com o ator Bruce Gomlevsky e a Banda Arte Profana.

O espetáculo conta fatos da adolescência difícil do cantor, que na época passou cerca de dois anos numa cadeira de rodas por causa de um mal ósseo chamado epifisiólise. E Bruce consegue retratar este drama de maneira comovente tirando lágrimas de todos os espectadores.

O roteiro inteligente da peça retrata de uma maneira sutil todas as fases vividas por Renato, desde a Banda Aborto Elétrico, as alegrias e dores da Legião Urbana, o filho Giuliano, a decisão de assumir-se gay e o namoro com o americano Robert Scott.

Aliás, este foi um período de transformação em sua vida, e Bruce (foto ao lado) consegue trazer de volta nos palcos os gestos mais típicos e jeito peculiar do musico, mancando de vez seu nome na dramaturgia nacional.

O espetáculo termina retratando sua morte melancólica no Rio de Janeiro, onde o cantor se isolou de todos os amigos após contrair o vírus HIV.

Mas até os dias de hoje, suas letras são poesia em estado bruto. Renato parece convidar o ouvinte a decifrar a vida, e a entender o amor. Essa foi a grande mensagem da discografia da banda: "o amor".

Se bem que ele nunca soube ao certo o significado desse sentimento: “Quem inventou o amor, me explica, por favor”. Entretanto, embora não acreditasse no amor romântico, mas “no respeito e na amizade”.

Renato queria que sua geração entendesse a força do amor. No épico “Faroeste Caboclo”, o personagem João de Santo Cristo só se arrepende dos pecados ao conhecer Maria Lúcia; em “Eduardo e Mônica”, Renato canta: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração” e vai relatando a história de duas pessoas completamente diferentes que se vêem arrebatadas pelo amor.

Em “Pais e Filhos”, ele eternizou os versos: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”; na ultramelancólica “Vento no litoral”, as frases “Aonde está você agora, além de aqui, dentro de mim?” e “Dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos juntos na mesma direção” revelam todo o desalento do poeta, que permance eternizado no coração de todos os seus fãs.

Matéria também publicada no site:

Blog do Hugo Harris
http://hugoharris.blogspot.com/2008/02/renato-russo-reencarnado-no-palco.html